O BOI E O BURRO A CAMINHO DE BELÉM

Essa peça é uma adaptação da obra de Maria Clara Machado. O texto original encontra-se no livro "Teatro I" da coleção “Teatro” – Editora Agir.
Personagens: Boi, Burro, Estrela, Cinco anjinhos, Maria, José, Três Reis Magos, Pastor.



CENA 1

(Surgem o Boi e o Burro, ao ritmo da música dançando descontraídos e examinando o ambiente. Ao terminar a música, eles se colocam um de cada lado do palco).
Sugestão de música: “Berceuse - Brahms”

BOI: Muuuuuu!!! (mugindo).

BURRO: Hiiiiiiiii!!! (relinchando).

BOI: Burro, ei Burro. Você está notando qualquer coisa hoje?

BURRO: Não estou notando nada, não, Boi!

BOI: Você é mesmo muito burro, hein amigo? Então não está vendo que tudo está meio mudado?

BURRO: (cheirando o ar). É verdade, amigo Boi. Tudo cheira diferente por estas bandas (cheirando com barulho).

BOI: (olhando o céu). E nunca o céu esteve tão estrelado, tão perto! (continua olhando o céu, e o Burro faz o mesmo).

BURRO: Não é que é verdade, amigo Boi, não é que é verdade? Sou mesmo muito burro... não tinha notado antes. Está tudo muito esquisito!(mudando de tom e olhando assustado para o Boi). Será que o mundo vai acabar, hem, Boi?

BOI: Talvez comece um outro mundo!

BURRO: (triste): E nós? Haverá pastagens para nós dois no outro mundo?

BOI: Sei não! (Enquanto isso, mais um susto...)


CENA 2:

(Entra a estrela de Belém, lentamente ao som de uma música natalina. Ela segura uma grande estrela de papelão nas mãos. O Boi e o Burro vão seguindo a estrela com os olhos)

BOI: Éhhhhh... esse lugar que era quieto, silencioso... agora...  (Ouve-se a flauta do Pastor. O Boi e o Burro olham espantados para o Pastor que toca a flauta de bambu, olhando para o céu).

PASTOR: (Já no palco parando de tocar olhando para o céu). Oh! (nesse momento a estrela de Belém fixa a estrela de papelão bem em cima do estábulo e sai de cena).

BURRO: (Seguindo o olhar do Pastor). Oh!

BOI: (idem).

PASTOR: A estrela parou.

BURRO: Parou.

BOI: Bem em cima.

OS DOIS: ... do nosso estábulo.

PASTOR: (Sempre fitando a estrela).  Grande como um girassol!

BURRO: Única no céu distante!

BOI:  Com o brilho de mil estrelas...

OS TRÊS: Nunca se viu outra igual!

BOI: (Aflito). Pastor, explica! Explica por que a estrela parou bem em cima do nosso estábulo!?

PASTOR: Mistério! Mistério, amigo Boi. Mistério que um pobre pastor não pode desvendar.

BOI: Nem eu...

BURRO: (Triste). Nem eu...

(O Pastor recomeça a tocar a flauta e sai dando uma volta por trás do estábulo, desaparecendo pela esquerda, ao fundo).

BOI: (Muito aflito, e ainda olhando para o céu). Burro! Ei burro!

BURRO: Que é boi?

BOI: (Aproximando-se bem do Burro, e falando quase em segredo). Estou muito desconfiado.

BURRO: De que Boi?

BOI: (Cheio de mistério). De que ele vai nascer aqui.

BURRO: (Escandalizado). Nem digo isto, Boi. Numa estrebaria tão suja. Tão pobre.

BOI: Então por que tudo isto? Por que a estrela parou bem em cima?...

BURRO: (Rápido). A estrela deve ter se enganado.

BOI: (Correndo o estábulo). E este cheiro tão doce por toda a parte...

BURRO: (Chegando para a cesta de capim encostada ao estábulo). Até o capim nosso de cada dia, cheira bem hoje...

(Corre e diz à platéia, assustado). Onde já se viu isto? Pensar que ele ia nascer aqui...

(Dá um salto, indo para o meio da cena, e indo nervosamente).

BURRO: (Assustado com a explosão do Boi, e segurando-o). Fica quieto, Boi. É bom irmos arrumando as coisas por aqui! (pega uma vassoura) Vamos fazer uma limpezinha, porque no caso de acontecer...

BOI: É mesmo (pega um pano e começa a limpar tudo, inclusive o rabo do burro e a própria cara) Vou buscar palha seca e fofa! (Eles saem e tornam a voltar segurando um pouco de palha. Cada um puxa a palha para seu lado e brigam).

BURRO: NÃO empurra, sou eu que arrumo!

BOI: Sou eu Burro, Sou eu! Saia Sou eu que quero arrumar a palhinha para o Menino!


CENA 3 – ANJOS

(Ouvem-se vários sininhos que vão aumentando de volume. Entram os anjinhos. Um, segurando uma vassoura prateada e bailando, vai varrendo a cena. O segundo carrega um jarro de água e o terceiro, uma bacia. Eles se encontram no meio do palco e o segundo anjo despeja água na bacia que é colocada perto da manjedoura. Dois outros as palhas espalhadas pelo Boi e pelo Burro, arrumando-as na manjedoura. O primeiro e o segundo anjos trazem uma toalhinha branca e colocam-na sobre as palhas. O terceiro anjo entra com um turíbulo, incensando todo o ambiente, inclusive o Boi e o Burro. Os anjinhos entram e saem num movimento contínuo e na ponta dos pés, como se dançassem. Durante toda a cena, os animais ficam estarrecidos, parados, um de cada lado, do palco. Quando o último anjinho sai, cessam os sininhos e o boi e o burro aproximam-se do estábulo)


CENA 4

(O boi e o burro observam a transformação do ambiente).

BURRO: Eles vieram arrumar...

BOI: Tudo está tão limpinho...

BURRO: (Desconsolado, dirige-se para a platéia e encosta a cabeça em algum lugar, como se estivesse chorando).

BOI: O que é burro?

BURRO: E nós, pobres bichos, que queríamos fazer este trabalho...

BOI: (triste): Quanta pretensão!

BURRO: Não percebemos que isto era trabalho para anjos e não para um boi babento...

BOI: Nem para um burro sujo

BURRO: (conciliador) Deixa pra lá, Boi! Não vamos brigar hoje. (aproximando-se do estábulo) Tudo está pronto!

BOI: Só falta acontecer... E só nós dois aqui...

BURRO: Um burro!

BOI: um boi!

OS DOIS: Pra tamanho acontecimento!


CENA 05MARIA E JOSÉ

(Ao som de uma musica, entram José e Maria, este levando Jesus debaixo do manto invisível, enquanto caminham até o palco – Música baixa, enquanto o Burro e o Boi falam).

BOI: Oh!

BURRO: Oh!

BOI: (Ternamente, mas solene). Lá vem Maria lentamente carregando o mistério.

BURRO: Parece leve como a brisa.

BOI: Parece uma gota no capim da manhã.

BURRO: Lá vem José.

(Quando José e Maria chegam bem perto do estábulo, aumenta-se o volume da música. Quando entram no estábulo, cessa a música e sinhôs começam a soar. Os anjinhos chegam na ponta dos pés e, sempre bailando, fazem um círculo em torno de Maria. Eles escondem Maria que, de costas para o público, coloca o Menino Jesus na Manjedoura. Os anjinhos continuam a dançar, enquanto Maria e José se colocam na posição clássica do presépio. Ela ajoelhada e ele, no outro lado, de pé, apoiado no cajado. Os anjinhos vão se afastando e saem, sempre dançando. Um foco de luz cai sobre o Menino. Música durante toda a cena. O Boi e o Burro ficam num canto, só assistindo)


CENA 06

(O boi e o Burro aproximam-se na ponta dos pés)

BOI: Que maravilha!

BURRO: (puxando o Boi) Não se aproxime tanto! Não é bom que ele veja logo nossas caras feias...

BOI: Tem razão! Ele pode se assustar! (Maria sorri para eles)

BURRO: (Emocionado): A mãe dele está sorrindo!

BOI: Pra quem? Para nós dois?

BURRO: Éééé´! Só pode ser pra nós dois?! (Eles começam a pular de alegria. Maria sorri de novo e eles vão se aproximando com cuidado).

BOI: Acho que ele esta com frio.

BURRO:  Pois então, aqueça ele com seu bafo quente né Boi!

BOI: (experimentando o bafo na mão) Boa idéia, Burro. Até que você ficou menos burro!

BURRO: E eu, com meu rabo, espanto as moscas.

(Eles dirigem-se para a platéia e dizem:)

BOI: Nunca imaginei ser mais do que um boi!

BURRO: E eu então? Tão burro... Tão burro... Nunca imaginei... Nós dois, um boi e um burro, ligados para sempre ao mistério.

CENA 07

(O boi e o burro afastam-se lentamente até se colocarem nas posições clássicas do presépio, cada um de um lado, atrás do Menino Jesus. Ao som de NOITE FELIZ, pastores e pastoras, entram pelo meio do teatro, depois, os reis magos com seus presentes. Todos se ajoelham para adorar o Menino. O público pode ser orientado com antecedência para também trazer suas ofertas, que serão colocadas num cesto à frente do presépio vivo e, mais tarde doadas a  irmãos carentes).

- FIM -


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